Leitura digital

Com o boom dos tablets e e-readers, discute-se uma tendência “inevitável” de que os livros e revistas se desprenderão cada dia mais do meio impresso e seguirão o fluxo “natural” para o meio digital. Eu, particularmente, discordo. Acho que existe, sim, uma tendência para que as publicações explorem o meio digital, mas duvido que extinguam as publicações impressas porque, na minha opinião, os livros carregam um valor que vai além do texto impresso – possuem personalidade, corpo e alma, instigam a imaginação do leitor, possuem cheiro, textura, e um potencial incrível de exploração que complementam a estória, através da diagramação, textura, tamanho, etc. Falo somente pelos livros porque acho que as revistas (salvo raras excessões) têm somente um valor temporário, e já estão destinadas ao cesto de lixo (reciclável, claro) no momento da compra. Não que elas tenham menor valor literário, mas somente porque não possuem (e nem devem possuir) todas as características que tornam um livro, um livro.

De qualquer maneira, existe essa tendência mas, ao meu ver, o meio digital não deve ser explorado para substituir o meio impresso, mas para complementá-lo. Eu tenho o costume de ler meus livros e revistas com o meu iPod do lado, o tempo todo conectado ao Google, pra que eu pesquise e conheça mais sobre o que estou lendo. Costumo começar a ler um livro já conhecendo o autor, que eu acredito ser um passo necessário pra entender a obra, já que todo texto leva consigo um pouco do autor. Conforme vou percorrendo as linhas e as páginas do livro, também tenho o hábito de procurar saber mais sobre os personagens que vão surgindo, sobre os cenários, etc… e gosto de, ao terminar o livro, buscar análises e comentários, já que sempre posso passar despercebido por algum detalhe, ter uma segunda opinião sobre um determinado acontecimento ou até mesmo descobrir novas leituras relacionadas ao livro que acabei de fechar.

Ultimamente surgem estudos e conceitos sobre a utilização dos tablets para os livros e revistas, e estes conceitos vão além de simular a mudança de página (page flip já encheu o saco mesmo). Mesmo as revistas digitais feitas em Flash já apresentavam algumas idéias, como animações e vídeos no meio dos textos, mas sempre deram mais ênfase em fazer parecer realista a ação de “virar a página”. Agora acho que o mais importante é se desprender do efeito page flip e partir para idéias criativas ou inovadoras se falarmos de interatividade e experiência para o leitor. No vídeo abaixo surgem três diferentes conceitos:

O conceito do Nelson é basicamente o que eu já costumo fazer: apresentar comentários e discussões sobre os livros, seus capítulos e temas. Considero o conceito mais palpável porque acho que é de valor pra todos que querem conhecer mais a fundo o que estão lendo, é importante para ampliar a leitura. O Coupland é um conceito, na minha opinião, babaca. A idéia, por baixo, é interessante, pois propõe formar uma biblioteca baseada em uma rede social formada por profissionais da sua área. Mas acho pouco prática pois depende dos usuários pra que haja controle. Diferentemente do primeiro conceito, em que os leitores propõe discussões, este segundo não me parece tão seguro de usar, pois as pessoas que trabalham na minha área não lêem somente livros da minha área. Eu leio diversos livros sobre design, claro, mas também tenho na prateleira “Alice no País das Maravilhas” (vários, por sinal), tenho “Mate-me Por Favor” e “Heroína e Rock n’ Roll” que podem até ser interessantes pra algumas pessoas, mas que não fazem parte de uma biblioteca de design. Eu não me vejo usando o Coupland. O terceiro conceito, Alice, me parece ser o mais interessante, porque convida o leitor a construir a estória, mais do que somente lê-la. Participar, interagir com a estória, é ampliar a experiência do leitor. É como quando eu lia, na infância, a série “Salve-se Quem Puder”! Era super interessante ter que matar uma charada antes de virar para a próxima página e estes livrinhos prendiam muito mais a minha atenção do que qualquer um dos outros livros que eu lesse quando era pequeno.

Idéias e inovações à parte, os exemplos de revistas digitais que já estão por aí, como a Mag+ e a Wired, apresentam soluções de estrutura bem parecidos, com artigos postos lado a lado, mudança na diagramação ao se alterar a visualização de retrato para paisagem e vice-versa, visualização de objetos 3D em tempo real, animações, videos, etc. Todas essas coisas já melhoram consideravelmente a experiência da leitura e são excelentes atrativos. Eu gosto de ver revistas sendo pensadas tendo como base a interatividade e a experiência do usuário, explorando as tecnologias, e espero poder ver coisa parecida com os livros.

Eu ainda prefiro os livros da maneira como são: gosto das páginas, da capa dura, do cheiro de tinta, das facas especiais, luvas e lombadas, mas também não reluto em experimentar um novo tipo de leitura tão cedo ele chegue às minhas mãos. Duvido que eu troque definitivamente os livros no meio impresso pelo digital, mas garanto que, se forem bem planejados, vou querer, de vez em quando, ler algum livro em um tablet.

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