Criaturas incríveis e cinetismo

Escultura cinética de Theo Jansen

Ontem de manhã vi umas das coisas mais extraordinárias da minha vida: criaturas, tipo esculturas cinéticas, que se movimentam sozinhas, sem qualquer tipo de motor e impulsionadas somente pelo vento. O artista holandês Theo Jansen inventou estas criaturas incríveis, as quais ele deu o nome de Strandbeests, usando tubos de PVC e muita habilidade, conhecimento de engenharia, física, mecânica e criatividade. Outra característica incrível é que, como Jansen cria suas esculturas com auxílio de computador, ele foi capaz de desenvolver um algoritmo genético, e suas criaturas literalmente evoluem de uma geração a próxima!

Movimento da pata
Movimento das patas das Strandbeests

Eu já comentei que discordo do conceito de “sustentável” que somos obrigados a engolir em nosso dia a dia mas, desta vez, eu concordo que as criaturas/esculturas de Jansen sejam sustentáveis. Primeiramente porque elas se movimentam usando somente o vento e, claro, o impulso gerado pelas “pernas” cuja energia movimenta a próxima perna através de um sistema tensionado mas, principalmente – e isso é genial – porque os últimos modelos das Strandbeests também têm a capacidade de armazenar ar sob pressão (em garrafas PET) e “criar” o seu próprio vento, quando os “recursos” estiverem escassos. Armazenamento de energia, em uma escultura de plástico, isto sim é sustentabilidade*! Por motivos óbvios as criaturas de Theo Jansen não são moto-contínuo mas acho que está aí um excelente design que pode, no futuro, nos levar a máquinas tão auto-suficientes quanto for possível.

Marcel Duchamp e a Roda de Bicicleta
Duchamp e a Roda de Bicicleta

Este tipo de arte recebe o nome de cinetismo, cuja expressão é baseada no movimento, impulsionado por um motor, engrenagens, vento ou pelo observador. A primeira escultura cinética é, provavelmente, Roue de Bicyclette, criada pelo artista francês Marcel Duchamp (quem você tem a obrigação de conhecer) em 1913 – esta, diga-se de passagem, não é um ready-made, anti-arte que inventou e o fez famoso – e deve ser tocada, movimentada, girada pelo observador… é no movimento que vive a arte, ela precisa dele! Duchamp se sentia tranquilizado com o movimento da roda de bicicleta. Este prazer de ver a roda girar e sua sombra movimentar-se na parede, inclusive, quem foi à exposição Marcel Duchamp: uma obra que não é uma obra de arte no MAM em 2008, não teve. Duchamp criou a Roda de Bicicleta para girar. A curadoria decidiu imobilizá-la. Idem fizeram com outra arte cinética de Duchamp, Rotative Plaques Verre (optique de précision), de 1920, que usa um motor para fazer girar 5 placas de vidro pintadas que, vistas de um ângulo exato, formam uma única imagem. A curadora do MAM matou a arte. Não poder girar a Roda de Bicicleta é como não poder tocar os Bichos de Lygia Clark.

Para finalizar, existe cinetismo mais e menos complexo, e acredito que as Strandbeests sejam sua maior exponencial, devido ao design e à estrutura, mistura de arte, matemática, engenharia e biologia. Genial.

*Em contrapartida, não fosse pela maleabilidade e durabilidade, poderia-se trocar o PVC por bambu, mas isso resultaria em vida útil muito curta e uma tonelada de bambu apodrecendo na praia… e nós não queremos isto, não é?

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