Por que os criativos estão deixando as agências?

Dia 20 de abril foi meu último dia na agência de propaganda onde trabalhei pelos últimos 9 anos. No início tudo era muito legal, os clientes eram legais (tínhamos Kibon e Hopi Hari, por exemplo) e eu aprendia muito diariamente. Mas já deu. Pra valer. E considerando as longas conversas que tenho com meus amigos, que trabalham em agências de propaganda, parece que já deu pra todo mundo, sempre pelos mesmos motivos:

“Quero trabalhar em alguma coisa que as pessoas usem de verdade.”
“Quero criar minha própria marca.”
“Quero explorar as novas tecnologias, e não só criar bobagens.”
“Nunca faço nenhum trabalho interessante.” ↜ este sou eu
“Sinto que não estou aprendendo mais nada.” ↜ olha eu de novo
“Eles só pensam em bater metas.”

Se você trabalha em uma agência de propaganda já há algum tempo, é bem provável que se pegou fazendo algum dos comentários acima. Não se culpe. As pessoas que têm as ideias e fazem o trabalho estão evoluindo e percebendo que elas próprias poderiam estar colhendo os louros em vez da agência.

As agências, por outro lado, parecem felizes em continuar vivendo do mesmo jeito em um mundo que está em movimento, e apostam nas mesmas ideias, ferramentas e sistemas de trabalho com diretores e CEOs que estão alheios ao mindset atual ou até com medo de instigar mudança.

“É a tempestade perfeita de empreendedorismo crescente, diminuição da lealdade e uma indústria que se deleita com a mediocridade,” afirma o designer Murat Mutlu.

As startups estão oferecendo salários iguais ou até melhores que as agências, mas com mais vantagens; as marcas estão montando in-houses para design e desenvolvimento porque perceberam que têm gastado um caminhão de dinheiro com serviço terceirizado; têm surgido cada vez mais estúdios de design e produto com líderes jovens e talentosos e, claro, a tecnologia tem diminuído as barreiras de começar seu próprio negócio, tanto na questão do tempo quanto com mão-de-obra, já que há cada vez mais freelancers – como eu – no mercado.

Enquanto algumas pessoas podem argumentar que “agências não têm foco em inovação ou criatividade,” a verdade é que, independente se isso é real ou não, é o que elas vendem para os clientes e até para a própria equipe… é só dar uma olhada nos anúncios bizarros de emprego e ver benefícios que vão de “sala de descompressão” até “festinha mensal com coxinha e refri”!

As agências estão tentando parecer a par das tendências mas sem fazer uma reforma dentro do próprio sistema, sabe? Os criativos existem e o desejo de trabalhar em algo satisfatório também, por isso as agências deveriam tentar criar um ambiente onde essas pessoas queiram usar seus talentos e criar coisas incríveis para os clientes e consumidores.

Ei, agência, aqui está uma listinha que pode ajudar:

Você não precisa parar de pegar jobs ruins

Você é uma agência e precisa manter as contas em dia, e nós entendemos. Mas ao mesmo tempo, você precisa ter ambições, assim como nós. É seu trabalho conquistar marcas e clientes que têm feito projetos interessantes que nos levem além dos nossos limites.

A gente não tem problemas com trabalhos zoados, faz parte do dia-a-dia e às vezes é até bom pra dar uma relaxada depois de um job intenso, mas mês após mês da mesma porcaria de trabalho sem rumo, para clientes que não têm a menor aspiração em fazer algo bom, é tóxico, não só para os criativos, mas para toda equipe.

Agora, se sua vibe é só ganhar dinheiro fazendo as mesmas porcarias de sempre, ao menos deixe isso bem claro quando entrevistar um potencial novo funcionário.

Você não inova

Uma das piores sensações é estar dentro de uma agência e ver todas as outras agências te deixando para trás. Pode ser um software que todo mundo usa faz tempo menos você, que ainda faz as coisas do modo antigo naquele mesmo software ultrapassado porque sua agência não se atualiza – e não te dá ouvidos quando você sugere uma atualização.

Você, agência, tem obrigação de permitir que o designer aprenda novas habilidades e progrida, mas os clientes normalmente têm medo de arriscar, e só querem algo novo depois que todo mundo já testou e provou e, quando aquele job “inovador” aparece, já é notícia antiga.

A gente entende que os clientes sejam assim, mas isso não é motivo para você não explorar novos conceitos por conta própria e, se você vende “inovação” como uma das características da agência, então deveria estar colocando isso em prática! É impressionante como tantas agências se safam em dizer que são inovadoras mas não têm nada pra mostrar. Ideias maravilhosas podem surgir se você prover o ambiente correto e permitir que os criativos trabalhem nessas ideias.

Você fica contratando mão-de-obra ruim (e não faz nada pra melhorar)

Não há nada pior que ver um funcionário super criativo ser botado pra baixo por um outro funcionário medíocre. E quando o criativo sai, o que você faz pra atrair novos talentos?

Claro que contratar as pessoas erradas pode acontecer, mas o problema é que você não tem a manha de corrigir o problema antes que seja tarde demais. Funcionários ruins são como câncer, eles acabam com o ambiente de trabalho e minam as pessoas em volta deles. Stephanie Travis escreveu um post sobre este assunto, onde diz:

“Você deve à sua equipe que está acertando. Não leve-os para baixo com uma personalidade que não combina ou habilidades abaixo do nível.

Se você está tentando melhorar sua equipe, foque em qualidade. Não sacrifique. Não contrate com pressa só porque está com um dinheiro sobrando ou porque se sente pressionado a fazer as coisas acontecerem. No minuto que você compromete a qualidade, já começou a cair.”

Você fica aceitando projetos que só são possíveis se a gente trabalhar 12 horas por dia

Chegar ao trabalho às 9h da manhã sem ter hora pra sair, as agências são assim, né? Mentira. Isto é falta de planejamento! Diga ao seu gerente de conta pra parar de prometer prazos impossíveis que só podem ser alcançados se a equipe se esgotar de trabalhar. Caramba, nos 10 dias que eu passei de férias em San Francisco, minha amiga (que mora lá) passou de licença médica porque quase se matou de tanto trabalhar! As pessoas acabam com sua saúde e seus relacionamentos a troco de que? De bater uma meta que você prometeu só pra ganhar o job? Ou pra entregar uma dúzia de mockups pro cliente antes de fechar pro fim de semana? O designer Matt Steel escreve, em um post genial:

“Antes de seu trabalho como coach, Peleg dirigiu um estúdio de design bem-sucedido em Los Angeles. Ele me disse que, nos 18 anos que esteve à frente da Top Design, nunca encontrou uma única emergência real de design. Aquela verdade ecoou fundo. Na firma de Peleg, eles não estavam salvando vidas ou lutando na guerra. Era um escritório de serviço, e eles viviam de acordo. Sua equipe estava no escritório das 9h às 18h de segunda a quinta, e das 9h às 14h nas sextas. Eles criavam expectativas realistas para seus clientes e batiam as metas. O negócio prosperava. Eles não respondiam ao telefone de noite e não estavam disponíveis aos fins de semana. A equipe de Peleg tinha limites claros, e seus clientes eram felizes. Eles trabalhavam enquanto estavam descansados e presentes. A qualidade de seu trabalho falava por si.”

Claro, às vezes é preciso ficar até mais tarde porque surgiu um problema ou você quer aprender uma nova ferramenta, mas deadlines surreais seguidas significa que você está trabalhando por medo, e não por amor. Medo de desapontar o cliente ou perder tempo buscando inspiração. O designer passa o dia na frente do computador e esquece porque se tornou um criativo em primeiro lugar.

Você não reconhece o esforço da sua equipe

Eu não entendo porque as agências, os diretores e CEOs continuam levando crédito pelo trabalho duro da sua equipe, sem se importar com isso! O assistente que trabalhou tarde durante duas semanas pra conseguir entregar o job, o gerente de conta que aguentou telefonemas e mensagens de WhatsApp a noite toda, eles são os verdadeiros heróis – e não recebem nem um e-mailzinho com um “valeu, equipe”.

Quer uma boa ideia pra dar mais exposição à sua equipe? Inicie um blog onde todos podem contribuir. As agências estão cheias de gente engajada com ideias e paixões, então por que não deixa-las escrever sobre suas experiências? Elas com certeza vão amar a ideia! A agência se beneficia do conteúdo, os contribuidores marcam presença na indústria e todo mundo sai ganhando.

Fim

Eu sei que as pessoas vão dizer que as agências sempre foram assim e mesmo assim, sempre existiram – meu pai perdeu a conta de quantas noites ele virou na agência nos 40 anos que ele está no mercado – mas os novos tempos estão forçando mudanças.

Hoje há muito mais opções para quem está no mercado, mesmo se compararmos com 8 ou 9 anos atrás. Designers e criativos engajados querem atender às expectativas do consumidor, e não só do cliente. E nós não estamos errados! As startups estão dando essa abertura, as agências não. Vai ver é por isso que os criativos estão deixando as agências.

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